Qual chega primeiro: Sentimento ou Conhecimento?

Resultado de imagem para imagens sobre razão e emoção“A razão é escrava da emoção”.

A eterna busca do homem pela aquisição do conhecimento verdadeiro fez nascer uma acirrada discussão entre os filósofos acerca do valor da razão e da emoção. Na maioria das vezes, a razão, supervalorizada, foi defendida como sendo um instrumento importante para obter o conhecimento verdadeiro. Quanto à emoção, por outro lado, houve não somente um desinteresse, mas, ainda, ela foi vista como um obstáculo à obtenção do saber. Esses pressupostos, diga-se de passagem, incorretos, deram nascimento à metáfora: de um lado encontra-se a divindade (razão) e, de outro, o animal “emoção” (diabo). Concordando com essa idéia, Platão  relata, num de seus escritos, que Deus criou em primeiro lugar a cabeça do homem, encarregada do raciocínio, e, posteriormente, foi forçado a criar um corpo com as paixões para permitir à cabeça mover-se de um lado a outro, pois, do contrário, ela não se moveria. Platão endeusou as idéias, e, ao mesmo tempo, deplorou os sentidos do homem junto com as emoções nele mescladas.

Muitos dramas escritos que retratam a vida moral do ser humano representam a luta da cabeça dotada de razão versus o corpo carregado de instintos animalescos. Apoiados nesses paradigmas míticos, os sábios deduziam que o homem alcançaria uma boa saúde mental caso ele canalizasse suas paixões corporais em direção aos fins virtuosos; um trabalho que seria realizado pela mente racional.

A cultura, principalmente a Ocidental, ainda se acha presa a essas idéias quando se descreve a fabricação dos julgamentos humanos, a todo o instante elaborados (“Assassina! Mata!”; “É uma santa; merece o paraíso”). O engano dessa crença fundamenta-se em outro princípio equivocado: acreditava-se que era possível descartar a emoção subjacente ao julgamento realizado pela razão, isto é, podíamos, caso desejássemos, eliminar o que atrapalhava a razão. Tudo seria simples e fácil, bastava apenas fazer uso apenas da razão pura, livre da perniciosa companhia de alojamento. Acontece, segundo os estudos atuais, que isso não é possível; não depende de nossa vontade. Razão e emoção trabalham de mãos dadas.

Fazendo uso dos princípios descritos acima, durante muitos séculos, acreditou-se ser possível alcançar o conhecimento sem a utilização de nossa visão, audição, gosto, odor e tato, isto é, dos órgãos sensoriais e das emoções nascidas do encontro nosso com o mundo externo e, também, interno. Essas afirmações, ainda seguidas por muitos, soam estranhíssimas aos “olhos” das ciências.

Os filósofos medievais cristãos, de modo similar, denegriram as emoções, culpando-as devido às suas ligações espúrias com os desejos e os pecados, pois esses não estavam conforme os desígnios divinos. Os racionalistas Leibniz e Descartes, adeptos dessa crença, embarcaram nas idéias iniciadas por Platão e, assim, contaminaram todo o pensamento ocidental – do qual participamos em parte – numa expectativa de padronizar todo o pensamento filosófico e, pela educação, o modo de pensar popular.

Deus e razão; ponto de partida para as explicações das emoções, cognição e conduta

Há muitos séculos tudo era explicado através de Deus. Há alguns poucos séculos a garantia da unidade da lei moral e natural deixou de ser Deus e passou a ser a razão humana (o novo deus). Houve uma troca de deuses. A hegemonia da razão propiciou a proliferação das grandes ideologias desenvolvidas a partir do século XIX: psicanálise, marxismo, comunismo, fascismo, nazismo, capitalismo, etc.

Para esses agitados teóricos da época, o homem não precisava observar, pois bastava pensar e especular, naturalmente do nada. Usando sua razão pura o homem poderia descobrir as regras de conduta e da organização da sociedade em harmonia com as leis da natureza. Era tudo muito fácil, bastava usar uma razão inteligente sadia. Mas o que é isso?

A idéia ainda persiste na mente de muitos homens, isto é, esses acreditam que é possível adquirir um conhecimento através de revelações, magias, macumbas e espiritismo, ou seja, sem uso do sistema sensorial, sem a realização de nenhum teste empírico. A elite (a pernóstica inteligência antiga e atual) não tolerava e ainda não suporta imaginar o homem como possuidor, também, de uma vida animalesca. Para esses profundos pensadores, a vida animal se assenta bem nos escravos, serventes de pedreiro, lavradores e nos chamados “homens inferiores”, mas jamais neles. Os sábios pensam e descobrem a verdade.

Seguindo o mesmo trilho, no “Iluminismo”, um pouco mais recente, seus defensores acreditavam poder alcançar qualquer conhecimento utilizando-se somente do intelecto, livre das emoções e do sensorial. Nesse período o poder da razão foi crescendo; tudo podia ser explicado por ela, totalmente livre dos fatos incômodos. O homem não precisava observar. Bastava ter uma lógica interna aparente que partia de uma premissa irrefutável. Esta não tinha como ser provada ou negada, pois era criada para isso: “Deus existe e Deus é bom. Logo, ele não me enganaria quanto às idéias que me ocorrem”.

Outros sábios da antiguidade ainda continuaram aprisionados à velha afirmação divina, interligados aos defensores da razão pura, e defendiam a tese de que nosso pensamento funcionava automaticamente, conforme leis divinas e eternas, em função do desejo do indivíduo, em todas as ocasiões e situações, a não ser que tivéssemos algum “transtorno psiquiátrico”. Mesmo no caso do “louco”, segundo essa crença, o portador da doença poderia, usando sua “razão” livre, escolher ter a maldição expulsa de sua mente. Tudo era questão de ter uma boa ou má vontade. A pessoa poderia expulsar o capeta usando, para isso, uma pequena parte da razão ainda intacta e não dominada pelo poderoso demônio que, sorrateiramente, entrara no seu fraco corpo.

A crença que afirma que somos mais racionais que irracionais insere-se muito mais numa aspiração ou desejo moral que na realidade. Acreditava-se que a partir da razão o homem seria capaz de descrever a realidade como se ela, a natureza, obedecesse a “realidade” existente na mente dos seguidores desse mito. Infelizmente isso não acontece. Somos, como o resto do Universo, também natureza; uma natureza que ainda não foi bem compreendida e, muito menos, descrita adequadamente.

Tem sido proposto que os sistemas subcorticais do cérebro, os quais constituem o substrato neural da motivação e da emoção, servem de filtros para guiar as percepções e determinar quais estímulos devem ser utilizados para produzir a avaliação do fato ou acontecimento. Conforme essas idéias, nós sentimos antes de conhecermos e, como corolário, o sentimento determina o que conhecemos.

Clínicos e especialistas parecem concordar que as emoções operam fora do foco da consciência e da memória de trabalho (memória utilizada durante uma conversa ou leitura que permite a compreensão). A idéia da emoção e motivação servirem de filtro para os estímulos sensoriais tem grande importância. Se essa idéia é correta – os sentimentos determinam o que nós selecionamos para conhecer – ou, também, os sentimentos influenciam significativamente os estímulos que focalizamos para posterior conhecimento pelos córtices cerebrais, precisamos reexaminar a enorme contribuição do afeto no processo de avaliação do conhecimento obtido, o contrário do pensado pelos adeptos da razão.

Dentro dessa idéia, a emoção continuadamente influencia (guia) a cognição, num nível consciente ou inconsciente. As revisões acerca da pesquisa sobre a influência do afeto na cognição indicam que os estados dos sentimentos (euforia ou tristeza) servem como iscas para localizar e isolar (restabelecer) trechos da memória. Para essa idéia, o material total da memória deve ser codificado (quando aprendido e armazenado para uso posterior) conforme as emoções nele embutidas. Essas suposições sugerem uma relação muito mais íntima entre as emoções (afeto) e o pensamento (cognição) do que era suspeitado anteriormente. Esta posição parece ser um complemento da noção que alguma emoção está continuamente presente na consciência. Essa idéia sugere que a experiência da emoção guia os processos cognitivos continuados e o armazenamento e lembrança posterior da memória.

Influência da emoção no julgamento

Há boas razões para duvidarmos da influência e do poder do raciocínio na elaboração do julgamento moral. Geralmente existem dois processos cognitivos trabalhando ao mesmo tempo: o raciocínio (cognitivo, lógico) e a intuição (automática, emocional). Históricamente, o processo do raciocínio foi muito enfatizado e priorizado, entretanto, na maior parte dos casos, o raciocínio é motivado, orientado ou desencadeado pela emoção sentida. De outro modo, o processo de raciocínio, com frequência, é construído após o julgamento já ter sido realizado. Por exemplo: “Um incesto? Que horror”; “Matar a mãe e o pai? É um monstro!”. Estas frases não foram feitas com um raciocínio frio e calmo que nos levou a opinar, mas sim com a emoção despertada ao assistir ou ouvir a descrição da cena. Essa superposição de processos nos leva a experimentar uma ilusão do raciocínio objetivo. A maioria das ações morais está ligada às emoções surgidas durante a representação de um evento, não sendo fruto de nenhum raciocínio.

Nós fazemos, sem parar, julgamentos morais, entretanto, parece que poucas vezes fazemos uso do modelo racional para julgarmos uma conduta moral. De modo simples e direto: diversos estudos demonstraram que as pessoas seguem muito mais suas intuições/emoções morais que reflexões morais (pensar, meditar demoradamente). Esse tipo de julgamento (intuitivo/emocional) pode gerar consequências, às vezes, graves com respeito à saúde pública, política pública e outras espécies de sistemas. Para piorar tudo isso, o indivíduo adquiriu o conhecimento X ou Y e alcançou essa informação através de suas emoções disparadas (intuições), entretanto, ele supõe que chegou às conclusões verbalizadas através da razão ou do raciocínio lógico, ou seja, “acima de qualquer suspeita”.

Imagem relacionadaA importância da emoção nos julgamentos: síntese final

A Psicologia, principalmente a Psicologia Moral, foi dominada pelos modelos racionalistas com respeito aos julgamentos morais ao acentuar, em demasia, o poder da razão e sem fazer uso das emoções para compreender ou interpretar as verdades importantes acerca do mundo. Segundo os defensores do racionalismo, o conhecimento e o julgamento moral são alcançados fundamentalmente através do processo do raciocínio e da reflexão. Conforme este modelo, a pessoa agiria como se fosse um magistrado pesando cuidadosamente (com esmero) nos aspectos do dano, direito, justiça e imparcialidade, antes de julgar o evento.

Entretanto, existe um outro modo de pensar, pois, de acordo com a Filosofia Intuitivista, quando uma pessoa alcança as verdades morais ela não está sendo orientada por um processo de raciocínio ou reflexão, mas sim por um mecanismo mais parecido a uma percepção rotineira; a pessoa sente ou nota o fato sem argumentar se ele é, pode ou deve ser verdadeiro.

Para alguns, esse processo – não o racional – representaria as “verdades auto-evidentes”. A intuição moral é uma espécie de cognição (conhecimento), mas não é um tipo de raciocínio. Segundo esse segundo modelo, diante de um evento provocador de emoções e julgamentos, o indivíduo sente um lampejo instantâneo frente ao acontecimento, como, por exemplo, um mal-estar diante do relato de um incesto e, nesse caso, informado pelo seu mal-estar (asco, aversão corporal), ele sabe, intuitivamente, que aquilo não é certo.

Nesse caso, somente após a “revelação” intuitiva, que “afirma internamente” e sem raciocinar que “Isso não é certo!”, a pessoa explicará para si ou para os outros as razões pelas quais ela crê ser o incesto errado. Portanto, diante da intuição, o sentido internamente, nesse caso uma repulsa, o nosso intelecto pede uma verbalização da expressão emocional ocorrida automáticamente. A explicação posterior aos sinais percebidos pelo corpo irá justificar a expressão de asco diante do evento. Nesse caso, o explicador faz o papel de um argumentador (não do julgador/magistrado) que tenta construir justificativas para sua opinião anterior – a aversão ou mal-estar sentido – um sentimento que apareceu instantaneamente, como fecharmos os olhos diante de uma forte luz. Entretanto, o percebedor não sabe explicar de forma convincente a origem de sua repugnância.

Visão pessoal….

O homem adora classificar os fatos. Cada um é colocado numa gaveta; depois, nova categorização é feita e os selecionados são postos numa ordem hierárquica em outra gaveta. Os fatos classificados num determinado arquivo, uma vez catalogados quanto ao seu valor, passam a ser mais importantes que outros. Estamos sempre valorizando ou desvalorizando tudo que encontramos. Nossa história tem sido a de classificar as emoções num segundo plano, dando pouco valor a elas. A cognição ou razão, ao contrário, tem sido valorizada em demasia; ela foi posta na gaveta de cima e as emoções no cesto do lixo.Para diminuir a força das emoções, fomos educados, ou melhor, domesticados como qualquer animal selvagem. Classificadas como processos de segunda classe, nossos pais e professores nos ensinaram a conter a manifestação de nossas emoções. Uma vez treinados e domesticados, sentimos vergonha e culpa, quando, sem querer, as expressamos diante dos outros; de outra forma: fomos treinados para domar o animal que habita o interior do organismo. Presos à classificação dual (bom e mau, Deus e Demônio, bonito e feio, forte e fraco, inteligente e idiota), fomos incentivados a expressar o visto como oposto às emoções, ou seja, nossos pensamentos. Classificamos e passamos a acreditar na nossa categorização que a razão (cognição) é a parte divina nossa, a valorizada e importante para o ser humano. Essa idéia, diga-se de passagem, é tola. Não raciocinamos adequadamente sem a ajuda e sem o funcionamento adequado de nossas emoções. As emoções são os pilares que sustentam a razão.Fomos educados para valorizar, notar e preferir o verbal ou “racional”, entretanto, somos, na maioria das vezes, extremamente irracionais, isto é, negamos uma parte importantíssima nossa. Afirmar que somos bastante irracionais não nos desvaloriza, pois assim fomos construídos pela evolução; não se sabe por que escolhemos um aspecto como “superior” e o outro como “inferior”.Nossa cultura hipertrofiou a crença do valor das conversas, dos diálogos; ao mesmo tempo, amorteceu o papel das emoções: “Precisamos dialogar mais com nossos filhos”; “Os problemas serão resolvidos se discutirmos acerca deles”, etc. A crença no valor do pensamento e fala é tão intenso que as pessoas não percebem que elas, sem saber, expressam emoções a todo o momento, por mais que as detestemos e que as deixemos de lado. Esse esforço é em vão. Querendo ou não as emoções aparecem sorrateiramente, dão sinais de vida: aumenta o ritmo cardíaco, nascem suores, surge certa confusão mental, ocorre a falta de ar, há tremores e outras centenas de transtornos corporais e mentais. Todos esses sinais corporais frequentemente se expressam indiretamente através do tom, timbre e altura da voz, pelo conteúdo dos diálogos formulados, pelas contrações faciais, movimentos corporais, isto é, sinais próprios das emoções de raiva, medo, alegria, etc.Enganados pelas nossas classificações defeituosas, diminuindo o valor ou o poder das emoções, aparente ou explicitamente acreditamos que não estamos valorizando os estímulos emocionais, isto é, excitações provocadas por informações enviadas através da linguagem corporal dos gestos. Mas, sem querer, reagimos a essas mensagens, às vezes veladas, mas nem sempre; essas informações têm um grande poder de ação sobre nossa conduta, muito mais que a maioria das palavras vazias emitidas por um ou outro interlocutor, muitas vezes, termos descarnados e desossificados.São as emoções sentidas, boas e ruins, que nos levam a assistir um filme pavoroso ou tranquilo; observar, por diversas vezes, a cena de terror do avião trombando nas torres; a ler um artigo ou um livro determinado; a conversar com um e fugir de outro. São as emoções sentidas que nos fazem ouvir uma música; assistir um jogo bem disputado de qualquer esporte; ficar inertes diante da tela observando um corredor que se aproxima da reta final; deliciarmos com um balé bem dançado. Muitos dos espetáculos citados são sem palavras; são movimentos, faces sorrindo ou sofrendo, que nos transmitem emoções, apenas emoções. Muitas vezes ficamos aborrecidos com a narração do locutor da dança, do jogo, da corrida ou música; ele impede-nos de enxergar o que desejamos, com o prazer original, isto é, de apenas sentirmos; a descrição nos cansa, nos obriga a pensar.Por isso, um artigo ou livro científico é, muitas vezes, detestável. Ele é chato, isto é, não nos provoca emoções, ou provoca muito poucas, como, por exemplo, a emoção embutida na curiosidade. Mas é pouco. Por tudo isso, há um movimento para permitir a provocação de emoções nos textos científicos, pois, desse modo, a leitura, além de produzir o conhecimento desejado, também desencadearia o prazer de outras emoções: graça, raiva, identidade, etc. É claro que a aquisição do conhecimento produz, em muitos curiosos e interessados, emoções extremamente agradáveis, mas precisamos de outras. As emoções são nossos motores e sem elas provavelmente não agiríamos, ficaríamos num mesmo local sem nada fazer, talvez dormindo ou morrendo. Alguns homens vivem assim.O mundo, apesar de estar cansado da palavra, continua usando-a abundantemente, como ocorre com a narração desnecessária de fatos que estamos observando com os nossos sentidos. Inúmeras vezes as palavras usadas para descreverem os eventos ou fatos não se referem ao observado ou sentido, pois são conceitos vazios e inúteis. Ao contrário, muitas vezes o uso das palavras, como no exemplo do narrador do jogo de futebol, nos fornece uma idéia preconceituosa, ou, no mínimo, falsa ou inadequada ao que se observa e, evidentemente, uma idéia diferente dos diversos observadores.

Inspiração…

Trabalhos do Dr Galeno Alvarenga-Neuropsiquiatria e Neurociência

Trabalhos do neurocientista Antonio Damasio

cropped-cropped-cropped-cropped-cropped-preto-e-branco11.jpgMonicavox

Recomendo….

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