HARDWARE X SOFTWARE

Nos últimos anos, a maneira escolhida para tratar desse enigma tem sido o “funcionalismo” e a tendência a comparar o cérebro com um computador, sugerindo que a mente, ou consciência, pode ser igualada aos processos que acontecem dentro do computador. Somos aquilo que podemos fazer, e o que podemos fazer é definido pelo plano detalhado de nosso circuito. O modelo do computador ainda domina a maior parte das pesquisas sobre o cérebro, que por sua vez tingem com suas cores toda forma de nos percebermos. Muitas vezes falamos em ter de “alimentar o sistema” ou estarmos com os “fusíveis queimados”, estarmos “ligados” ou “desligados” e “programados para o sucesso ou para o fracasso”. Dizemos que nosso cérebro é o hardware e nossa mente o software. Toda a biologia moderna agora opera segundo “programas comportamentais” onde antes havia um senso de propósito, ou ao menos de direção. Pensamos em nós mesmos como a “máquina mental”. O cérebro é certamente o órgão controlador central do sistema nervoso e, como tal, suas funções físicas incluem comunicação, coordenação, computação, aprendizado e memória, todas elas funções que nossos melhores computadores também possuem em algum grau. Nesse nível, as analogias entre o funcionamento cerebral e o do computador são irresistíveis.

Existe indubitável semelhança entre o modo como são organizados os complexos ajuntamentos de neurônios do cérebro e o serpentear de fios que compõe o circuito elétrico de um computador, especialmente agora com a invenção dos computadores com processamento paralelo. Assim como as “células nervosas” de um computador, os 10 bilhões ou 100 bilhões de neurônios do cérebro são também um tipo de fiação elétrica com várias mensagens passando para dentro e para fora do cérebro através de impulsos eletromagnéticos que viajam pelas ligações entre os neurônios, as sinapses. O cérebro está sempre literalmente fervilhando com milhões de acontecimentos neurais altamente carregados, dentre os quais, sem dúvida, uma grande parte é responsável por nossas impressionantes habilidades de processar dados e computar.

Mas será que isso é o que entendemos por consciência? Será a computação — com toda sua diversidade e complexidade — tudo o que a mente verdadeiramente tem? Se assim for, ficamos tentados a imaginar por que os computadores não possuem mente. Sem dúvida, eles sabem fazer coisas muito sofisticadas. Conseguem analisar material genético, operar matemática complexa, ou jogar xadrez num nível razoável, embora vagarosamente. Mas até agora ninguém afirmaria que um sistema de computação eletrônico de qualquer tipo imaginável seja sequer remotamente consciente. Simplesmente não conseguimos sentir que eles são conscientes.

Faltam-lhes espontaneidade e criatividade, falta-lhes imaginação, eles não riem de piadas, não desfrutam de música e não sentem dor nem fazem nenhuma das outras coisas desse tipo que normalmente associamos com a vida consciente da mente humana. Como colocou um filósofo de Oxford: “Simplesmente não saberíamos interpretar a sugestão de que um IBM 100 esteja bravo ou deprimido ou passando por uma crise de adolescência”. Talvez seja possível conceber que inventemos programas sofisticados que darão aos computadores a aparência de tal comportamento consciente — como no caso um tanto fantasmagórico de Eliza ou Doctor, o programa concebido para estimular entrevistas psiquiátricas; Mas, como alertou o autor do Eliza, há mundos de diferença entre técnica ou simulação programadas e uma verdadeira espontaneidade e empatia. Pensar de outro modo seria uma forma de insanidade, embora muito freqüentemente em nossa cultura mecanizada a insanidade passe por normalidade. Se aceitarmos a equivalência entre o ser e o fazer dos funcionalistas não há modo claro de argumentar que algo que se comporta conscientemente não seja consciente.

Toda nossa forma de ver a consciência vem sendo tão tolhida pelo modelo mecânico que lhe foi imposto que perdemos de vista os fatos que ligam o desenvolvimento cerebral à consciência e ficamos cegos às características verdadeiras de nossa percepção consciente. Tornamo-nos insensíveis a nossa própria experiência e, no processo, a distorcemos. O perigo é o de que, se continuarmos a nos ver como máquinas, talvez nos tornemos máquinas — isto é, talvez venhamos a reduzir toda a riqueza de nossa vida consciente ao espectro muito mais estreito dos pensamentos e comportamentos que podem ser transpostos para programas. Este é um perigo que outros reconheceram e sobre o qual escreveram, mas se quisermos vencê-lo devemos encontrar uma forma radicalmente diferente de pensar sobre a ligação mente-cérebro, e através disso uma forma mais humana de nos percebermos.

No fim, isso só pode ser feito através de uma melhor compreensão de ambos: da fisiologia do cérebro e do fundamento físico da consciência. De fato, o cérebro humano é uma complexa matriz de sistemas sobrepostos e interligados, correspondentes às várias etapas da evolução, e o ser que dele brota é parecido com uma cidade construída ao longo das eras. Sua arqueologia inclui uma camada pré-histórica, uma camada medieval, uma camada renascentista ou elizabetana, uma camada vitoriana e alguns prédios modernos. Ela certamente não é apenas uma “cidade nova” ou uma “cidade de fronteira” construída toda de uma vez em vinte anos, como sugere o modelo do computador. 

Cada um de nós traz em seu próprio sistema nervoso toda a história da vida biológica no planeta, ou ao menos aquela pertencente ao reino animal. Na camada pré-histórica encontramos os animais unicelulares como ameba ou paramécio, que não possuem sistema nervoso. Toda sua coordenação sensorial e reflexos motores se dão numa única célula. Nossas células do sangue, os glóbulos brancos, ao recolher o lixo e consumir as bactérias, comportam-se no sangue de uma forma muito parecida com as amebas nos lagos. Animais pluricelulares simples, como a água-viva, não possuem sistema nervoso central, mas têm uma rede de fibras nervosas que permite a comunicação entre células para possibilitar ao animal reagir de forma coordenada. Em nosso corpo, as células nervosas do intestino formam uma rede que coordena o peristaltismo, as contrações musculares que empurram a comida. Com o passar do tempo, acrescenta-se camada sobre camada nessa “cidade” em evolução. A partir dos insetos, começa-se a encontrar uma ou mais massas de tecido nervoso que se encarregam de uma computação mais extensiva, e estas massas organizam-se cada vez mais próximas da extremidade da cabeça.

Nosso reflexo de contração, que nos faz levar a mão para longe de uma panela quente, envolve apenas o cordão espinhal e assemelha-se, tanto anatomicamente quanto no comportamento, ao encontrado nas minhocas. Com o advento dos mamíferos, desenvolve-se um telencéfalo — primeiro o telencéfalo primitivo dos mamíferos inferiores governado basicamente por instintos e emoção, e depois os hemisférios cerebrais com toda sua sofisticada capacidade de computação, aquelas “células cinzentas” que a maioria de nós identifica com a mente humana. No entanto, o estado de embriaguez, o uso de drogas como barbitúricos e outros tranqüilizantes ou mesmo uma lesão do telencéfalo superior resultam numa regressão a tipos de comportamento mais primitivos, mais espontâneos, menos calculistas, como os observados nos mamíferos inferiores.

Quase a totalidade da psiquiatria humana, o lado verdadeiramente médico do tratamento dos problemas que afetam a consciência, preocupa-se em regular o hipotálamo e o telencéfalo primitivo. Assim, apesar da crescente centralização e complexidade que aparecem à medida que o sistema nervoso evolui, as redes nervosas mais primitivas perduram, tanto no interior do cérebro em expansão como em todo o corpo. As fases mais recentes de nossa evolução suplantaram as fases anteriores, mas não as substituíram completamente. As experiências da ameba e da água-viva, da minhoca e da formiga estão todas plantadas em nossos tecidos nervosos, e como cada uma dessas criaturas partilhamos a capacidade de ser consciente.

CONEXÕES E PERCEPÇÕES

Conforme observou Whitehead, “a mente humana é consciente de sua herança corporal”. Portanto, o que quer que seja a consciência, não poderá ser idêntica às funções cerebrais superiores possibilitadas pelas conexões nervosas no córtex cerebral. Evidentemente a forma que a nossa consciência assume, o conteúdo de nossas percepções e pensamentos são influenciados por essas conexões, mas a capacidade de ser consciente em si, a consciência não estruturada, crua, deve ser mais elementar. Alguns animais, embora conscientes, não têm córtex,’outros somente um córtex muito primitivo. Alguns humanos que tiveram grandes regiões de seu córtex cerebral danificadas ou removidas cirúrgicamente podem apresentar perda de uma capacidade específica, como a fala, a visão ou o movimento, mas permanecem conscientes, da mesma forma como bebês recém-nascidos também são conscientes. 

A consciência em si, que inclui a capacidade geral de percepção e atividade propositada, deve surgir de algum mecanismo físico muito mais primitivo que o cérebro humano desenvolvido, de um mecanismo acessível a uma reles ameba. Assim, compreender de que forma isso pode acontecer — encontrar uma base para a consciência que explique a consciência de todas as criaturas vivas (e possivelmente das não vivas) — é de fundamental importância para a compreensão tanto do lugar quanto da razão de ser de uma consciência humana no esquema geral das coisas. Essas são as considerações com as quais, de um ponto de vista geral, se argumenta contra o modelo de cérebro calcado no computador, mas há também argumentos fenomenológicos.

Se examinarmos atentamente certas características básicas da consciência — ao menos na forma em que são experimentadas pelos seres humanos — fica evidente que uma capacidade com essas características não poderia, em princípio, advir de tal modelo.

Todos os modelos calcados no computador partilham de uma suposição subjacente de que o cérebro em si funciona segundo as mesmas leis e princípios de uma vasta máquina de computação — isto é, que suas diferentes partes (seus neurônios) cooperam de modo ordenado, mecânico, obedecendo a todas as leis determinadas da física clássica. Num modelo assim, um estado cerebral deriva necessariamente do outro. Temos somente um grupo de neurônios estáticos e previsíveis “olhando para” outros grupos e reagindo a eles, sem nenhum lugar no cérebro onde todos esses grupos separados se integram. Não há um “comitê central” de neurônios que supervisiona o processo como um todo, dando unidade ao funcionamento cerebral e permitindo-lhe fazer escolhas livres e espontâneas. 

Onde está então, em meio aos trilhões de conexões nervosas e eventos deterministas, a pessoa que experimentamos como sendo nós mesmos? O que explica o “eu” que experimenta fome, que decide comer uma maçã e sente prazer após fazê-lo? Como é que chegamos a ter “a experiência” de comer uma maçã em vez de umas tantas impressões desconexas produzidas por um milhão de impulsos sensoriais distintos?

O MAPA DE CARACTERÍSTICAS DISTINTAS

O problema foi ilustrado por um trabalho recente sobre a visão humana. Quando vemos uma maçã, sabemos imediatamente que é uma maçã, um pequeno objeto vermelho, redondo, em pé dentro de uma fruteira a um metro de distância, sobre a mesa. Há outras associações ligadas à maçã em nossa percepção consciente total: que ela irá satisfazer nossa fome, que ela faz bem à saúde, que a decisão de Eva quando comeu a maçã foi a desgraça da humanidade etc. Mas essas associações não fazem parte da percepção visual, que consiste em informações sobre o tamanho, forma, orientação, cor e localização da maçã — cada uma das quais é anotada separadamente pelo cérebro. O cérebro não vê “uma maçã”, mas antes o vermelho, o redondo, o pequeno etc.

A informação sobre cada uma das características está arquivada num lugar diferente, dentro de um “mapa de características distintas” e depois subseqüentemente num “plano geral de localização” . Uma vez composto o plano geral, a atenção focalizada assume o comando, olha para o plano geral e vê a maçã. A atenção faz uso desse plano geral selecionando simultaneamente, através de ligações com os diversos mapas de características, todas as características normalmente presentes numa determinada localidade . A informação integrada sobre as propriedades e relações estruturais em cada arquivo de objeto é comparada com descrições armazenadas numa “rede de reconhecimento”. A rede especifica os atributos decisivos de gatos, árvores, ovos mexidos, nossa avó e todos os demais objetos de percepção conhecidos.

A ATENÇÃO FOCALIZADA

Mas o que é esta atenção focalizada que promove a integração da informação vinda do plano geral da percepção? A unidade de nossa experiência consciente, o fio de atenção focalizada que reúne toda a miríade de impressões sensoriais, é um dado subjacente a todos os outros aspectos dessa experiência.

Como as notas de uma melodia ou as várias características da maçã ou cenas visuais mais amplas, os conteúdos de nossa consciência se mantêm coesos. Eles formam um todo, um “quadro”. Cada parte desse todo deriva dele o seu significado e reflete em seu próprio ser tanto o todo como suas outras partes constitutivas. O fá sustenido que eu ouço é um “fá sustenido do Adágio de Mozart”, não está isolado em minha percepção.

O arbusto que vejo da janela do meu escritório, suas folhas se agitam no horizonte,todas essas coisas estão presentes em mim ao mesmo tempo quando olho pela janela. Elas são, em sua inteireza, “minha visão da janela”. Sem esta inteireza, essa unidade, não poderia existir nenhuma experiência tal como a conhecemos, nada de maçãs, jardins, nenhum sentido do ser (identidade pessoal ou subjetividade) e, portanto, nenhuma vontade pessoal ou decisão (intenção) propositada — tudo isso são características conhecidas de nossa vida mental. 

A unidade é a característica mais essencial da consciência, tão básica ao que quer que chamemos consciência que a maioria de nós nem sequer se dá conta de que existe. E, no entanto, é procurando conhecer essa unidade que nos damos conta de quão profundamente misteriosa é a consciência e por que sua física nos vem confundindo até hoje. Não há unidade comparável a ela em nenhum sistema descrito pela física que conhecemos do cotidiano. Todo o corpus da física clássica e a tecnologia nela baseada (incluindo-se a dos computadores) dizem respeito apenas à separação entre as coisas, às partes que compõem as coisas e à maneira como elas se influenciam umas às outras dentro de sua separação, assim como os neurônios do cérebro agem uns sobre os outros através das sinapses.

Ainda que não houvesse outros bons motivos para rejeitar o modelo do computador para o cérebro, o argumento relacionado com a unidade da consciência por si já condenaria esse modelo. Como disse Descartes, quando se viu às voltas com o problema de como explicar a consciência em termos físicos, “há uma grande diferença entre a mente e o corpo, na medida em que o corpo é por sua própria natureza sempre divisível, enquanto a mente é totalmente indivisível”. Essa divisão aparentemente irreconhecível foi um dos argumentos que levou Descartes a seu dualismo.Filósofos mais modernos, embora ainda esperançosos de encontrar alguma maneira para explicar a consciência em termos físicos, chegaram à mesma conclusão quanto a todos os modelos físicos clássicos, até mesmo o calcado no computador.8 E, se a física do computador em princípio não consegue dar-nos uma física da consciência, não pode ser um modelo totalmente correto para demonstrar como o cérebro funciona e tampouco é, conseqüentemente, um reflexo muito acurado de nós mesmos e de como funcionamos como seres humanos. 

No lugar do modelo do computador, algumas pessoas, motivadas pelas deficiências desse exemplo, e divergindo de quase tudo o que sugere sobre a consciência e o ser, propuseram um tipo de modelo bem diferente para refletirmos sobre a consciência e o cérebro, um modelo que pretende partir do tema da unidade e explicá- la em termos físicos. É o modelo holográfico, ou o “paradigma holográfico”, como é por vezes grandiloqüentemente descrito. E è este novo conceito que veremos a seguir,aguardem…

Visão pessoal…

Numa psicologia quântica, não há pessoas isoladas. Existem indivíduos, que possuem identidade, significado , propósito, mas, como as partículas, cada um é uma breve manifestação de uma particularidade(Consciência). Essa particularidade está em correlação não-local com todas as outras particularidades e, em certo grau, entrelaçada a elas. Tudo o que cada um de nós faz afeta todos os demais, direta e físicamente. Sou guardiã de meu irmão porque meu irmão é parte de mim, assim como minha mão é parte de meu corpo. Se machuco minha mão, meu corpo inteiro sente a dor. Ao ferir minha consciência — ocupando-a com pensamentos maliciosos, egoístas ou maldosos — estou ferindo todo o “campo” não-localmente conectado da consciência. Cada um de nós, em virtude de nosso relacionamento integral com os outros, com a natureza e com o mundo dos valores, tem a capacidade de melhorar ou piorar o Todo. Portanto, cada um de nós carrega como resultado de nossa natureza quântica uma tremenda responsabilidade moral. Eu sou responsável pelo mundo porque, nas palavras de Krishnamurti, “eu sou o mundo”. Ou, na expressão de Jung: “Se as coisas vão mal no mundo, isso é porque algo vai mal com o indivíduo, porque algo vai mal comigo”. Portanto, se sou uma pessoa sensata, vou me endireitar primeiro. Apenas responsabilidade dá significado e valor a nossa existência. Mas em que medida podemos fazer face a ela? Se uma psicologia do compromisso e da responsabilidade quiser ter algum valor em si mesma, deverá levantar a questão da liberdade humana, a questão do grau em que qualquer um de nós é livre para se comprometer como quiser ou assumir a responsabilidade que é nossa por natureza. Portanto, uma psicologia quântica deve adotar alguma posição quanto à realidade e eficácia da escolha. 

Inspiração…

 

A consciência não está no cérebro

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SCIENCE OF CONSCIOUSNESS

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Recomendo….